Que saudade de blogar...
Em breve publicarei minhas experiências desse conflituoso semestre.
Formação dos Professores e as Novas Tecnologias
Jacineide Arão dos Santos
A sociedade contemporânea passa por um processo contínuo de mudanças em todas as áreas do conhecimento e da vida social. As novas tecnologias são as grandes protagonistas deste cenário, pois provocam uma transformação acelerada na disseminação das informações e na forma como as mesmas estão sendo processadas. Mudam-se as formas de comunicação, o que interfere de forma direta nos aspectos sócio-político-econômico e culturais.
As tecnologias da informação e comunicação (TICs) provocaram uma nova configuração no ambiente alterando significativamente as formas de relações que são estabelecidas entre os indivíduos. Elas não representam apenas uma modernização dos outros meios de comunicação (TV, vídeo, impressos). Segundo Andrade e Pretto (ANDRADE, PRETTO, 2003, p.13) constituem-se como elementos estruturantes de uma nova forma de ser, agir e pensar. Um dos grandes ícones deste processo revolucionário é o advento, disseminação e utilização da internet, a qual permite um acesso muito rápido às informações. Desta forma são criadas redes de comunicações, as quais passam a exercer papel primordial atualmente, sendo que o conhecimento ocupa lugar de destaque em tal sociedade. Esta afirmação pode ser constatada pela utilização constante da expressão “sociedade da informação”.
Conforme Andrade e Pretto (Ibdem, p.12), a sociedade da informação é estruturada a partir das redes de comunicação e está potencializando as modificações em todo o tecido social, estabelecendo uma nova ordem, com conseqüências ainda não plenamente identificadas. Mas uma coisa é certa: uma nova cultura (cibercultura) se forma na rede, o que envolve várias alterações na forma de interagir com as informações e principalmente na maneira que o conhecimento passa a ser construído. O ciberespaço (espaço em rede) é dinâmico e está envolto de uma nova lógica, onde todos são agentes na sua construção.
É preciso reconhecer que os espaços de conhecimentos não são estáticos, mas “emergentes, abertos, contínuos, em fluxo, não lineares, se reorganizando de acordo com os objetivos ou os contextos, nos quais cada um ocupa uma posição singular e evolutiva” (LÉVY, 1999, p.158).
Nota-se que as novas tecnologias têm cada vez mais um papel relevante na sociedade contemporânea e, por conseguinte na educação, já que ela deve ser a expressão do que é a sociedade e é fundamental para o desenvolvimento da mesma. Então é preciso mudar alguns paradigmas educacionais com o objetivo de não ignorar tais mudanças e a formação do professor e o seu papel devem ser analisados e discutidos nesta perspectiva, quer seja, a da transformação.
A escola não pode ficar alheia as mudanças que ocorrem na sociedade, mas deve interligar-se aos outros espaços de conhecimento e trabalhar com as várias formas de linguagem através dos diversos recursos tecnológicos. A qualidade na utilização das novas tecnologias está atrelada a forma como serão utilizadas, sendo o professor um ator importantíssimo neste processo.
Os professores precisam compreender que as novas tecnologias devem ser “implementadas” sob a ótica da transformação e construção. Assim precisam ser capacitados para que elas não sejam subtilizadas, sendo vistas apenas como ferramentas do processo de ensino e aprendizagem e não como estruturantes do mesmo. Tendo em vista o seu importante papel, qualquer iniciativa que contemple a introdução das TICs na educação deve garantir a sensibilização e formação deles nas novas tecnologias. Conseguir esta formação é um desafio.
Não é simplesmente modificando as técnicas que a escola irá superar o seu caráter tradicional e irá melhorar o processo educativo. A inserção das novas tecnologias deve está acompanhada de uma outra lógica educacional. O professor precisa entender que não se trata apenas de uma mudança tecnológica. A introdução das TICs na educação deve estar associada, “a mudança do modo como se aprende, mudanças das formas de interação entre quem aprende e quem ensina, à mudança do modo como se reflete sobre a natureza do conhecimento” (TEODORO apud MERCADO, 1999, p.35). Esta compreensão certamente implicará em uma nova atitude pedagógica frente às tecnologias, pois passarão a ser vistas como fundamentais no processo educativo.
A discussão em torno da formação do professor não é algo novo, mas tem se intensificado com a sociedade da informação. Há muito se questiona acerca do seu papel como transmissor do saber e da relação que estabelece com os seus alunos reproduzindo uma “educação bancária” tão criticada por Paulo Freire. Conforme Lévy:
É preciso superar a postura ainda existente do professor transmissor de conhecimentos. Passando, sim, a ser aquele que imprime a direção que leva à apropriação do conhecimento que se dá na interação. Interação entre aluno/professor e aluno/aluno, valorizando-se o trabalho de parceria cognitiva; (...) elaborando-se situações pedagógicas onde diversas linguagens estejam presentes. As linguagens são, na verdade, o instrumento fundamental de mediação, as ferramentas reguladoras da própria atividade e do pensamento dos sujeitos envolvidos (LÉVY apud MAGNAVITA, 2003, p.339).
As mudanças que ocorrem na sociedade advindas dos avanços tecnológicos e das telecomunicações requerem dos profissionais novas competências. O professor precisa revê o seu papel de forma crítica com o intuito de ressignificar a sua prática docente. A sociedade da informação está aí e o professor com certeza não pode ficar fora dessa.
Professor: um multiplicador?
As questões levantadas apontam para a importância em inserir os professores nas novas tecnologias para que possam utilizá-las de forma criativa e inovadora. Mas até então, a formação deles têm se configurado em um dos maiores entraves para a inserção das TICs nos processos educacionais.
O Programa Nacional de Informática na Educação (ProInfo), criado em 1996 pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), tem como propósito universalizar o uso das tecnologias digitais na rede pública brasileira, sendo a capacitação dos professores nas TICs o foco do programa. Existem muitas críticas em torno da lógica em que os programas governamentais estão imbricados. Além da sua forma aligeirada, pois segundo Bonilla (BONILLA, 2002, p.45) fica a dúvida com relação as reais condições em participar ativamente como construtores do processo de ensino e aprendizagem de forma crítica e autônoma com uma formação tão rápida e superficial. Há também uma ligação aos organismos financeiros, os quais preocupam-se apenas com a capacitação e formação em serviços.
Outro aspecto grave é a dinâmica do programa que visa formar multiplicadores. Esta expressão traz em si uma noção de reprodução, o que vai contra a perspectiva inovadora que as novas tecnologias devem estar inseridas.
Como já foi apontada a internet é uma das marcas deste cenário de mudanças, mas se não houver políticas públicas voltadas para a inovação, ela ainda será utilizada como um instrumento que visa reproduzir os sistemas socialmente instituídos.
Vários são os motivos que levam os professores resistirem ao uso das TICs. A inexistência de uma formação para tal ou a existência deficiente com certeza são causas que devem ser analisadas com cautela. Segundo Alves (ALVES apud PASSOS, 2003, p.348) mesmo quando há algum entendimento sobre as TICs na educação, elas ainda subtilizadas, pois são centralizadas em técnicas e não na incorporação da tecnologia, como adjuvantes da produção de sentidos pelos educandos.
Os professores não podem ser tratados como meros multiplicadores, a sua formação deve ser bem mais complexa para que sejam motivados a “tornar-se um animador da inteligência coletiva de seus grupos de alunos em vez de um fornecedor direto de conhecimentos” (LÉVY, 1999, p.158).
No contexto atual não dá para pensar em uma formação vitalícia, pois esta se torna obsoleta muito rápido. É preciso encará-la como um processo contínuo de mudanças, onde uma formação contínua é indispensável. O professor não pode ficar inerte neste contexto, deve inquietar-se com esta constante transição e enfrentar os desafios que são postos pela sociedade do conhecimento. Segundo Moran:
Os educadores que não quiserem se lançar ao mar, muito apegados à terra firme poderão ficar a ver navios. Mas não há mais porto seguro: o oceano de informações que a internet disponibiliza aos alunos obrigará os professores a se atualizar constantemente e a se preparar para lidar com as múltiplas interpretações da realidade (MORAN, 1999).
O Professor Online: múltiplos desafios
Um professor consciente e crítico pode perceber as mudanças provocadas pelas novas tecnologias na educação e o quanto elas podem melhorar a sua atitude pedagógica. Os professores que estão distantes da cibercultura perdem as mudanças decisivas que ocorrem em toda a sociedade. Os professores precisam aprender a lidar com esta nova realidade, assim poderão criar novas formas de se comunicarem e de se relacionarem com os seus alunos, o que contribuirá para a ressignificação de sua prática docente.
Um dos grandes desafios que é posto pela sociedade da informação é a mudança na relação entre professor e aluno. O aluno não é mais apenas receptor do conhecimento, por meio da internet eles têm acesso a uma gama de informações, o que inquieta os professores acostumados com a pedagogia da transmissão. É preciso reconhecer que os educandos também são co-autores do seu processo de aprendizagem. Esta é a ameaça que muitos professores têm enfrentado por estarem acostumados, segundo Silva (SILVA, 2002) com um sistema comunicativo unidirecional “um-todos”, onde muitas vezes eram vistos como detentores do saber.
Ao conhecer o ciberespaço o professor percebe que ele está inserido na perspectiva da interação, entendida como colaboração, onde todos são vistos como autores deste espaço.
A compreensão da lógica deste novo espaço é fundamental para que o professor reconheça as possibilidades surgidas com as redes eletrônicas no tocante à comunicação e interação entre os sujeitos superando vários preconceitos em torno da questão. Além disto irão entender que as TICs são mais um patrimônio cultural da humanidade e os alunos não podem ser podados deste direito.
O professor deve atualizar-se e buscar inspiração para a sala de aula, seja ela online ou presencial, pois ele pode utilizar a lógica do ciberespaço com outras tecnologias (TV. Rádio, impressos). Ele não pode mais transmitir, deve disponibilizar, criar possibilidades de aprendizagem junto com os educandos. Conforme Silva:
No lugar da memorização e da transmissão centradas no seu falar-ditar, o professor propõe a aprendizagem aos estudantes modelando os domínios do conhecimento como espaços abertos à navegação, manipulação, colaboração e criação. Ele propõe o conhecimento em teias (hipertexto) de ligações e de interações, permitindo que os alunos construam seus próprios mapas e conduzam suas explorações (Ibdem).
Ao compreender a cibercultura e suas possibilidades, o professor estará tentado a não ser mais um mero transmissor, mas um constante instigador e provocador de situações, onde o educando terá as suas experiências valorizadas e será visto também como construtor do seu percurso de aprendizagem.
Essa mudança na postura do professor urge. Ele tem que se atualizar para não ficar a ver navios.
Referências:
ANDRADE, Simony Alves de, PRETTO, Nelson de Luca. A internet e os desafios para os professores in NOÉSIS: caderno de pesquisa, reflexões e temas em currículo e formação. v.1, n.1, 2000. Salvador: UFBA/ FACED/ PPGE/ NEPEC. p.11-27.
BONILLA, Maria Helena. Inclusão Digital e Formação de Professores in Revista de Educação, v.XI, n.1, 2002. Departamento de Educação da F.C.U.L. p.43-50.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo. Ed.34, 1999.
MAGNAVITA, Claudia Regina Aragão. Educação a Distância: novas perspectivas para a formação de professores in Revista da FEEBA/UNEB, Departamento de Educação I. v.12, n.20, jul/dez, 2003. p.333-341.
SILVA, Marco. O professor online e a pedagogia da transmissão. Rio de Janeiro, 2002. Disponível em [http://www.folhadirigida.com.br/professor/Cad08/artMarcoSilva.html] acesso em 02/jul/2006.
MERCADO, Luiz Paulo Leopoldo. Formação Continuada de Professores e Novas Tecnologias. Maceió: EDUFAL, 1999.
MORAN, José Manuel. A Internet na Educação. São Paulo, 1999. Disponível em [http://www.educacional.com.Br/entrevistas/entrevista0025.asp] acesso em 02//jul/2006.
PASSOS, Maria Sigmar Coutinho. Navegar é Impreciso: considerações sobre a formação de professores e as TIC in Revista da FEEBA/UNEB, Departamento de Educação I, v.12, n.20, jul/dez, 2003. p.343-351.
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